Sobre Esperantina
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Brasão de Esperantina-PI

ASPECTOS HISTÓRICOS

1.1 Povoamento: Primeiros Habitantes

A história do município de Esperantina data do século XVIII, quando em 1706, o Capitão-Mor português Antônio Carvalho de Almeida, fundou a Fazenda Taboca, na margem esquerda do Rio Longa. Miguel Carvalho e Silva, filho de Antonio Carvalho de Almeida, em 1739 não possuindo, da Fazenda título e sendo legítimo herdeiro, pediu ao Governador Capitão do Estado do Maranhão que lhe concedesse a terra em sesmaria. E assim se verificou. Foi o sitio da Boa Esperança com a Fazenda Taboca doada em carta de sesmaria a 13 de julho de 1739 a Miguel Carvalho e Silva.

1.2 Esperantina Fazenda

Surgiram posteriormente outros fazendeiros como João Antonio dos Santos, que na época de estiagem começaram a fazer o retiro do gado das fazendas para as margens do Rio Longa, recebendo o local onde erigiu Esperantina a denominação de Retiro da Boa Esperança. O povoado foi crescendo sendo edificado casas e currais. Em 1843, Francisco Xavier Moreira de Carvalho, inicia a construção da capela de Nossa Senhora da Boa Esperança, concluída em 1847, por Domingos Moreira de Carvalho. Em 1859, Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco traz de Lisboa (Portugal) a imagem de Nossa Senhora da Boa Esperança para a capela.

1.3 Esperantina Vila

No alvorecer deste século o povoado toma grande impulso, recebendo novos moradores dedicados a lavoura e ao comércio. Foi quando o povoado Retiro da Boa Esperança foi elevado a categoria de vila e emancipou politicamente de Barras pelo Decreto Lei n°970 de 25 de junho de 1920, do interventor do Estado do Piauí Dr° Eurípides Clementino de Aguiar. A 28 de setembro do mesmo ano o Dr° Nilo de Morais Brito, juiz distrital de Piracuruca oficialmente a Vila ocorrendo pomposos festejos.

1.4 Esperantina cidade

A 15 de dezembro de 1938, através do Decreto Lei n°147 do Governador Leônidas de Castro Melo, a vila da Boa Esperança adqueriu foros de cidade, sendo oficialmente instalada a 1° de janeiro de 1939.

Pelo Decreto Lei n° 754 de 30 de dezembro de 1943, Boa Esperança passou a denominar-se ESPERANTINA, nome dado em homenagem à padroeira do local Nossa Senhora da Boa Esperança.

FATOS DA HISTÓRIA DE ESPERANTINA

1. Massacre dos ciganos

O nordeste brasileiro no início deste século manteve muitos conflitos entre famílias e posteriormente o cangaço independente.

As diferenças tradicionais e insubordinação levou tribos nômades a cometer muitas irregularidades por onde passavam. Vindo do Ceará, com destino ao Maranhão os ciganos, no ano de 1913, encontravam-se no nosso estado, em Peixe (Nossa Senhora dos Remédios), onde invadiram a loja do Sr. Antonio do Rego C. Branco. O chefe do grupo, Benjamim da Rocha Medrado, dirigiu-se ao Sr. Antonio do Rego, pedindo cachaça e vinho. O Sr. Antonio do Rego serviu aos bandoleiros o que eles pediram. Depois de servidos, o chefe do bando sentou-se em uma cadeira que estava próxima ao balcão, sacou da bota enorme faca e colocou-a sobre Antonio do Rego, que se achava debruçado sobre o balcão, pelo lado de dentro. Tirando a faca, aponta para um dos companheiros e diz: -“Olha, fulano, um espinho, por menor que seja, entrando em nosso corpo nos incomoda; avalia esta, toda metida no corpo do diabo’!

Dito isso, pediu um vidro de óleo, abriu e passou no bigode e cabelo e pergunto o preço. Respondeu o Sr. Antonio do Rego que custava 2$600. Replica o cigano: -“só vale dez tostões e é o que pago”. Mandou pegar café e disse a mesma coisa sobre o preço. Pegou os copos que foram postos para servir o vinho e atirou-os sobre a prateleira, fazendo descer copos que estavam embrulhados, expostos à venda. Disse injúria e afirmou: -“Seu Antonio do Rego, o senhor merece é uma visita do Antonio Silvino”! Retirou-se com zombarias e risadas.

Depois do ataque, o Sr. Antonio do Rego seguiu para Barras, de onde telegrafou ao governador e secretário de polícia pedindo providências.

O governador Miguel Rosa organizou com o secretário de polícia uma tropa de volantes comandada pelo 2º tenente Manoel da Cruz Oliveira, que partiu de Teresina na manhã de cinco de novembro num vapor com destino a Miguel Ales. Chegaram ali no dia sete e encontraram o cigano por alcunha de “Seu homem”, com seu pequeno bando. O senhor Manoel da Cruz intimou-a retirar-se do nosso território, em virtude de ordem, por escrito, do governo do Estado. Seguiu o 2º tenente para Marruás onde teve notícias dos ciganos a umas cinco léguas, no lugar Campo Largo. Estes obedeciam ao líder Liberato Guerreiro, que havia jurado, na casa do coronel Marcelino Rego, tirar a vida do capitão Antonio Rego.

Chegando a força oficial a Campo Largo de madrugada, o tenente Manoel da Cruz postou a força policial deitada em linha de atiradores, a uns 60 metros do acampamento dos ciganos. Mandou ter com eles o guia de nome Abel intimar Liberato a comparecer à sua presença. Ordenado a sair de nosso território, respondeu, arrogantemente, que não se retiraria, nem mesmo se fosse preciso lutar. O tenente Oliveira prendeu Liberato Guerreiro, entregando-o ao 1º sargento Anísio e ao cabo Leandro. Em seguida ordenou que a força avançasse acelerado rumo à casa ocupada pelos ciganos sendo recebidos trinta metros adiante com alguns tiros. Vendo que seria necessário reagir energicamente, ordenou que deitasse a força e desse uma descarga na mesma direção de onde partiram os tiros. Protegidos pela noite, os ciganos fugiram. Chegando ao local em que antes se achavam os fugitivos, encontraram uma mulher morta por bala da força e, pelos sinaisde sangue encontrados, é possível que havido feridos. O dono da casa, um pobre lavrador que os ciganos obrigaram a dar-lhes pousada e alimento foi ferido no ventre por bala de rifle, pois deixara um orifício de mais de cinco centímetros na saída. Por ocasião do tiroteio o cigano Liberato Guerreiro tentou matar o 1º sargento Anísio com um punhal, travou-se então uma luta corporal que acabou com a morte do cigano. O civil, dono da casa veio a morrer.

Regressando a Marruás, encontraram no caminho um pequeno grupo de nove ciganos que não resistiram às ordens e se retiram do nosso território. Em poder deles não encontraram nenhuma arma. No Marruás, deu descanso à tropa e foi ter ao lugar Tanquinho, onde constava achar um grupo de cigano, o que não era verdade. Dali seguiu novamente a Marruás e a Peixe onde recebeu um guia de confiança e dirigiu-se ao Retiro da Boa Esperança, percorrendo diversos lugares e pousando no lugar Beiru. Ai teve notícias do bando chefiado por Benjamim da Rocha Medrado que pernoitara a uma légua de distância, no lugar Engano. Resolveu o tenente Oliveira seguir com a tropa somente pela manhã, a fim de evitar algum incidente como se deu em Campo Largo. Chegando lá, o bando já havia levantado acampamento. Continuou a tropa a marchar para o Retiro, alcançando-os a duas léguas do povoado. Tentou dialogar, sendo respondido a bala, que só não teve efeito devido à distância de os quatrocentos metros que se encontraram andando a pé e a cavalo. A força policial acompanhou-os na entrada do povoado na manhã do dia 11 de novembro daquele ano de 1913. Ao entrar no Retiro da Boa Esperança, houve o choque do bando, cerca de duzentos ciganos com a força policial. A força policial deitada respondeu ao fogo. Os ciganos atiravam de dentro do povoado.

Encurralados, refugiaram-se na casa do Sr. Manoel Lages, dizendo-se perseguidos e que eram homens de bem. A força policial procurou logo cercar a casa, auxiliado pelo proprietário, que um dos ciganos quisera, segundo ela, matar a pistola, quando procurava tirar o filho dos braços de uma cigana. O cabo Leandro foi mandado com dez praças para intimá-los a saírem e renderem-se entregando as armas. Benjamim Medrado, o chefe do bando, respondeu que não se sujeitava a intimações e que o destino dele era aquele e não entregava as armas.

A casa do coronel Manoel Lages foi invadida, com seu auxílio, pela força policial, tendo os ciganos fugido pelos fundos, refugiaram-se nas matas próximas, de onde fizeram fogo a força policial. O tenente Manoel da Cruz Oliveira também ordenara abrir fogo sobre eles. Morreram no tiroteio nove ciganos, inclusive o chefe Benjamim Medrado. Foram baleados um menino cigano, duas ciganas e um homem do povo. Dos fugitivos, muitos voltaram para o Ceará, outros atravessaram o Parnaíba para o Maranhão.

Seus bens foram confiscados, muitos deles devolvidos a seus donos. As mulheres ciganas foram amparadas, recebendo transporte, alimento e dinheiro.

Inquérito policial foi instaurado para apurar os crimes, depuseram muitas testemunhas. Os ciganos mortos não tiveram nenhum tratamento, sendo enterrados no cemitério velho, em vala comum.

O segundo tenente Manoel da Cruz Oliveira, permaneceu no Retiro da Boa Esperança por mais três dias, depois voltou a Teresina sendo recebido como herói. Mais tarde, após apuração do massacre foi afastado da força policial a bem do serviço público, tendo sido seus atos julgados arbitrários.

2. Peste negra

No início do século XX, quando o povoado Retiro da Boa Esperança começou a ser realmente desbravado, desmatado e edificadas muitas residências, o povo foi acometido de uma grande epidemia que quase o dizimou. As pessoas encontravam-se de mãos e pés de cor amarelada, febre alta, vômitos de cor preta e feridas na gengiva. O povoado vendo-se atacado pela enfermidade que desconhecia, batizou-a de peste. Peste e negra para matar grande parte da população daquela época.

A falta de médicos levou muitas pessoas ao cemitério, às vezes três ou quatro no mesmo dia. As mortes eram tão freqüentes que já não dava para fazer caixão, enterravam na própria rede do falecido.

Foi quando o povo e os vaqueiros viram no gado a única salvação, para isso reuniam grande manada que se batiam nas ruas estreitas do povoado.

A crença de que o bafo do gado cura doenças é antiga como também de que a pessoa que dormia perto dele estava protegida de todo malfazejo.

E, suplicando ainda pela intervenção de São Sebastião, protetor das pragas, o povo fez promessa de que se o santo livrasse o Retiro da Boa Esperança da peste passaria a festejá-lo. E Cristino Félix de Melo esculpiu uma imagem do santo que passou a ser festejado como o segundo padroeiro, assim surgindo os festejos de São Sebastião.

3. Chacina negra

No festejo de São Sebastião , do ano de 1947, o padre teve que antecipar a festa religiosa para participar de um retiro espiritual de padres que aconteceria naquela data. O último dia do festejo ocorreria em 16 de janeiro, mas por volta do meio dia surge um grande incidente. Havia muitas bancas de jogos caipira e outros; as maiores freqüências, entretanto, davam-se nos jogos de baralhos e tampinha, onde os mercenários faziam furtos. Neste dia, Crispim Borges não estava como sorte; jogava tampinhas e perdia sucessivamente, trapaceado e enganado pelo profissional do jogo. Crispim havendo feito uma aposta maior e, perdendo, zangou-se, reclamou do jogador, dizendo que ele havia lhe roubado. O jogador respondeu que não devolvia dinheiro algum. Que aquele jogo era pra perder e não ganhar. Crispim derrubou a banca de jogos. O dono partiu para cima de Crispim, este deu-lhe um tremendo bofete, atirando-lhe ao chão, quando se levantou deu um ponta-pé em Crispim que foi também ao chão. Chega mais membros negros da família Borges que tomam partido de Crispim e travam luta sangrenta na base de socos e pontapés. A polícia chega e intervém, prendendo Crispim.

Os irmãos, vendo Crispim se preso, reagiram com murros. Travou-se verdadeira luta entre os Borges e o corpo de polícia. Armados de paus e pedras os Borges espancavam a polícia e os donos das bancas de jogos. A polícia pediu reforço, vieram policiais armados de rifles. O povo chama o tenente Diniz, na época também prefeito do município. Diniz Chaves saiu a frente de sua casa para ir tentar apaziguar a briga, sendo imediatamente alvejado com uma pedra, lançada pela família dos negros. Não se sabe ao certo quem atirou, tendo o prefeito caído, entrando em estado de coma, causando grande clamour na cidade. Com o atentado ao prefeito, a polícia começou a atirar na família Borges. No tiroteio morreu Raimundo Borges com um tiro que lhe amputara a mão. Miguel ficou quase estraçalhado no chão. Crispim ficou gravemente ferido, morrendo depois de muito haver sofrido. Seu pai um ancião, fugiu nadando no rio. Na travessia foi brutalmente morto por um soldado. Morto, o senhor foi arrastado sem piedade. A roupa do velho ficou aos trapos. O corpo dilacerado, o sangue esvaziava por todo o percurso. Próximo à casa do prefeito, foi jogado ao chão pela polícia.

A família do prefeito, vendo o velho dilacerado, ficou apavorada. Muitas pessoas saíram feridas a pauladas e pedradas. A cidade ficou aterrorizada, o padre suspendeu a festa, não ocorreu nem a procissão, pois as ruas encontravam-se ensangüentadas.

O povo e a família do prefeito não tinham esperança que o tenente Diniz ficasse bom e muitos choraram sua possível morte. No entanto, restabeleceu sua saúde, foi homenageado como festa pelo povo, tendo ficado muito agradecido pelo carinho recebido.

A família Borges ficou quase dizimada pela força brutal da polícia que agira com arbitrariedade.

E assim, toda vez que se antecipa os festejos de São Sebastião, acontece alguma coisa, segundo a crença popular.

Extraídos do Livro “Aspectos de Esperantina” de
Valdemir Miranda de Castro

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